sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Considerações sobre o conto O Barril de Amontillado - POE



Edgar Allan Poe soube, como poucos, abordar terror, mistério, sentimento e fantasia. Os temos por toda sua obra em cujo conteúdo depara-se com o bizarro, como em Os Crimes da Rua Morgue¹; com o sobrenatural; com o extraordinário; com sentimento de vingança, como no conto em questão e diversos outros temas menos comuns na literatura ocidental.

De fato, Poe foi pioneiro da moderna corrente de escritores que tem como tema o crime e o mistério por meio da figura do detetive.

Um dos que o seguiu foi Sir Arthur Conan Doyle, criador da personagem que melhor encarna a figura do detetive: Sherlock Holmes. Tamanha proporção tomou esta personagem, que Sherlock Holmes foi trazido de volta, dez anos depois de morto em livro, através das mãos do autor em mais algumas de suas obras. Doyle foi também consultor da Polícia britânica em diversos casos de crimes reais nos quais seu auxílio, pautado nos mesmos moldes de dedução de Holmes nos livros, levou a polícia a solução dos casos. Sherlock Holmes ganhou as telas em diversos momentos e encontra-se presente no imaginário de boa parte da humanidade.

Existem várias citações (em tom de crítica) das personagens de Poe nos livros de Doyle. Logo em seu primeiro livro, Um Estudo em Vermelho, Sherlock Holmes, quando comparado com Dupin, classifica-o como “um sujeito bem inferior”.

O Barril de Amontillado,³ conto escolhido para análise, trata de vingança, um tema bastante recorrente e comum, não tivesse dado Poe vida ao lugar comum de forma tão criativa. A premeditação da personagem principal elaborada no texto é eficaz e tem um desenlace extraordinário ao final.

O conto serviu de inspiração para filmes, peças teatrais e até mesmo para uma música do grupo The Alan Parson’s Project.

O barril de Amontillado é escrito em primeira pessoa, o que de certa forma torna o texto mais realístico e auxilia no desenvolvimento da trama. O tema vingança é tratado de maneira técnica e com frieza por parte de Montresor, personagem principal.

Figurativamente o núcleo do título do conto, barril, representa o desfecho da trama, especialmente levando-se em consideração que o barril não aparece no enredo a não ser como engodo para que Fortunato, a vítima da vingança, comporte-se de maneira que vá ao encontro dos planos de Montresor.

Montresor comete um ato perverso. Psicologicamente, a personagem principal é classificada como perversa: não possui sentimento de culpa ou angústia; mantém forte relação com a realidade; suas funções cognitivas estão preservadas; sua relação com a Lei é ambígua, pois sabe que esta existe e ainda assim faz a própria lei, e mantém, como todo perverso, vida dupla, sua vida criminosa aparta-se totalmente de sua vida social.

Montresor segue fielmente a estrutura do ato perverso: em sua relação com o outro, ignora a condição de sujeito da vítima, reduzindo-o a condição de objeto.

O conto de Edgar Allan Poe tem como assunto a vingança, mas não uma vingança qualquer. Segundo a personagem principal, uma vingança deve apresentar alguns aspectos para que se torne perfeita: a impunidade da chamada pena aplicada cujo autor jamais deve sofrer em razão de seus feitos, e o reconhecimento, por parte daquele que se torna alvo do revide posterior, da identidade de quem a perpetrou.

Montresor, a personagem principal, elabora o plano perfeito e põe-no em ação durante o carnaval italiano, quando, aparentemente por acidente, esse encontra Fortunato bastante embriagado e dá assim os primeiros passos além do que o Direito denomina cogitação e atos preparatórios. Assim, dá início à execução do que virá a ser o infortúnio da vítima quando consumada.

Conduz sua obra por meio do elaborado ardil. Sabendo ter-se a vítima em alta conta como enólogo, utiliza como engodo a existência de dúvida quanto à origem de um pretenso barril deste vinho, tão raro em pleno carnaval.

Em que pese seu nome, a vítima tem a fortuna voltada contra si rapidamente. Como que por vontade própria, Fortunato age ao encontro aos planos do agressor e o segue até as entranhas das cavernas de salitre, que, prestavam-se à catacumbas da família Montresor e faziam as vezes de adega quando do ato no qual passaram, convenientemente, a repouso de um membro de outra família.

O brasão dos Montresor é um detalhe que praticamente inspira a compreensão do conto: um enorme pé humano de ouro sobre um campo azul; o pé esmaga uma serpente cujos dentes estão cravados no calcanhar A legenda: Nemo me impune lacessit (Ninguém me fere impunemente). (POE, 2008, p.104).

O sombrio percurso, feito pelos dois, é úmido e embriagante como as garrafas de vinho sorvidas, e termina em uma mórbida cripta onde se dá o desfecho extraordinário deste conto.

Montresor com agilidade algema Fortunato à parede do nicho especialmente reservado para ser sua cela mortal. Este percebe lentamente a terrível trama da rede que o captura na medida em que aquele, com camadas de pedras e argamassa, sela seu destino com a última pedra acomodada. Após recolocar o velho monte de ossos, que permanece sem perturbação por meio século, esconde sua vingança - bem sucedida afinal.

Cask, barril em inglês, núcleo do título deste conto, representa muito bem este final, no qual o alvo da vingança jaz contido por trás de ossos empilhados.





1 - POE, Edgar Allan. Histórias extraordinárias. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

2 – DOYLE, Arthur Conan. Um estudo em vermelho. São Paulo, Círculo do Livro, s/d.

3 – POE, Edgar Allan. O barril de Amontillado. In: Histórias extraordinárias. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008, pp. 101-108.

Um comentário:

  1. Boa análise,não compreendi completamente mas ao ler a análise percebo que era evidente

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